Jonas Barcellos participou na criação do 1º laboratório de coleta de embriões na Índia Voltar

Você está em: Memórias do Zebu » Importações de Zebu para o Brasil » Quinta Fase (1994 – 2010) Publicado em 29/01/2016 às 11:13:55
Jonas Barcellos, um dos maiores investidores na zebuinocultura brasileira moderna. Fonte: Revista Dinheiro Rural, 2015.

Do final do século XIX até as últimas importações dos anos 1960, trazer o gado zebu para o Brasil à priori impunha para as pessoas envolvidas grandes desafios, como organização de trâmites legais e questões inerentes aonde se iriam realizar a seleção de animais nos confins da Índia e Paquistão. Entretanto, as maiores dificuldades para os brasileiros daquela época eram se situarem em meio a culturas tão distintas da brasileira; enfrentar períodos de guerras e instabilidades políticas em diversas partes do mundo; cruzar oceanos e territórios com a boiada até chegar finalmente às fazendas daqueles que estavam apostando no futuro da pecuária do zebu em nossas terras.

O processo de retomada das importações acontece em meio aos avanços tecnológicos experimentados pela humanidade no início do século XXI, num contexto bastante diferente das últimas importações dos anos de 1960. Contudo, é necessário ressaltar que o cumprimento de tal feito não se deu na resolução de uma simples equação.

 

Foram necessários 12 anos de tratativas diplomáticas para que as fronteiras que separavam os pecuaristas brasileiros, os governos da Índia e do Brasil pudessem se romper. O desfecho dessa novela se daria apenas entre 2008 e 2009, quando enfim os mercados se abriram para receber a entrada de safras de material genético de zebuínos no Brasil. Após anos de seleção e aperfeiçoamento das raças, o objetivo desta vez era efetivamente reduzir as consanguinidades, melhorando ainda mais o rebanho nacional.

 

Em fevereiro de 2008, os governos brasileiro e indiano assinaram um acordo de comércio, mas, por questões burocráticas na Índia, os primeiros lotes chegaram no Brasil apenas em dezembro daquele ano. A novidade é que desta vez, não vieram os animais "em pé". Foram embarcados botijões de embriões congelados de materiais genéticos de matrizes escolhidas a dedo por experientes conhecedores brasileiros que devassaram do norte ao sul o vasto território indiano à busca do "sagrado " zebu.


Leilão Elo de Raça na fazenda Mata Velha: Ronan Eustáquio da Silva, Jayme Miranda, Duda Biagi, José Carlos Prata Cunha, Jonas Barcellos e Orestes Prata Tibery Jr. (Dinheiro Rural, 2008)

Os procedimentos realizados foram feitos através de avançados aparatos de biotecnologia e segurança, onde se estabeleceram meticulosas medidas para enviar embriões sadios ao Brasil sem qualquer risco sanitário. A primeira remessa chegou ao país com cerca de 350 embriões (300 de nelore e 50 gir e guzerá), a seguir, vieram novas remessas de gir. Até outubro de 2010 entraram no País cerca de 1400 embriões.

 

Marcos Leonardo Moura esteve na Índia por 26 vezes. O Administrador do Grupo JOP (grupo composto por seis criadores de zebu), afirmou em entrevista concedida neste período, que existiam dois grupos brasileiros trabalhando na Índia num centro de criação de zebuínos constituído para extração de material genético na cidade de Bhavanagar no Estado de Andhra Pradesh. O Grupo JOP de investidores surgiu de iniciativa por Orestes Prata Tibery Filho e José Carlos Prata Cunha que convidaram para compor a turma Pedro Novis, Carlos Alberto Mestriner, Gilson Katayama e José Roberto Colli. O outro grupo foi formado e comandado por Jonas Barcellos Correa Filho e por Abelardo Lupion.

 

"Me deparei com exemplares muito bons, mas que não conseguimos comprar porque os donos simplesmente não queriam vender por questões sentimentais", comenta. Auxiliado por compradores locais, ele alerta sobre o trabalho realizado pelos dois grupos de importadores, que será fundamental para a preservação do nelore no mundo. "Como a utilização de animais vem diminuindo por causa dos tratores que começam a chegar em algumas regiões, os indianos estão cruzando o nelore com raças europeias de leite e tenho dúvidas sobre o futuro da pureza racial", diz. Ele explica que não há um controle oficial, ao contrário do que acontece no Brasil. Isso porque, segundo ele, não há um mercado de animais e os negócios acontecem muito mais visando a interesses locais do que ao desenvolvimento da raça" .

 

É importante considerar, que o sucesso da importação se deveu em grande parte pela intervenção direta do presidente de República Luiz Inácio Lula da Silva junto ao governo indiano, durante sua visita oficial ao país em 2008. Além das constantes negociações diplomáticas da embaixada do Brasil na Índia, sob a pessoa do embaixador Marco Antônio Diniz Brandão. Em entrevista a revista ABCZ, o então presidente da entidade, José Olavo Mendes, que integrou a primeira comitiva presidencial ao país em 2004, recorda que:

 

(...) a retomada das importações também é resultado de 12 anos de trabalho abnegado, arrojado e inovador de criadores brasileiros naquele país, com a parceria do Ministério da Agricultura, da Embrapa, da CNA e da ABCZ.

 

(MENDES, José Olavo. Entrevista a Revista ABCZ, 2008)


Biagi, Antônio Eustáquio Andrade Ferreira, então Ministro da Agricultura, e Jonas Barcellos, na ABCZ em 2013. Acervo: ABCZ, 2016.

No Brasil, as novilhas inseminadas foram submetidas a um período de quarentenário na estação oficial do Ministério da Agricultura na Ilha de Cananéia no litoral sul de São Paulo. Após acompanhamento minucioso desde o parto, os bezerros eram avaliados novamente durante um período até serem liberados. Assim, no início de 2010, nasceram os primeiros zebuínos indianos no Brasil frutos dessa leva. À medida do crescimento dos animais, pós-avaliação técnica, eles receberam o registo como POI - Puro de Origem Indiana da ABCZ.

 

Sobre este momento, Rodolfo Rumpf - pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, que esteve na Índia representando a Embrapa para contribuir na resolução de questões inerentes a abertura do comércio, comentava:

 

(...) os avanços da Ciência darão a essa importação um caráter histórico que vai além da parte sanitária. Será a possibilidade de se montar um banco de germoplasma das raças zebuínas no Brasil através de um intercâmbio entre os dois países. A inseminação artificial em massa das vacas zebuínas com sêmen de taurinos está reduzindo os rebanhos zebuínos por lá. Já o zebu usado para tração animal pode ser reduzido com a entrada do trator na produção agrícola. Futuramente, caso precisem da genética do zebu, os indianos terão de recorrer ao Brasil. Temos material genético zebuíno no Brasil capaz de garantir uma possível exportação. Esse foi um dos motivos que levaram o governo indiano a retomar as negociações em 2004.

 

(RUMPF, Rodolfo. Entrevista a Revista ABCZ, 2008)


O Zebu é parte fundamental da cultura indiana: milenarmente sagrado, resistente e produtivo. Assume papel vital no cotidiano do núcleo familiar. Fonte: Ângelo Tibery, 2006.

Comecemos a responder este questionamento, concordando com o leitor até certo ponto. Sem dúvida, é evidente que ao longo desses anos de história da zebuinocultura no Brasil, a qualidade fruto do resultado da seleção genética de nossos produtos é indiscutível, pois trouxe resultados extraordinários para a pecuária brasileira. Através dessa qualidade que se edificou um dos pilares que lançou o país entre as lideranças mundiais na produção de carne.

 

Contudo, para avançar mais em produtividade, uma preocupação central fomentou a retomada do "caminho das Índias" a busca do zebu, a questão de problemas inerentes ao afunilamento das linhagens de raças. A endogamia, ou seja, o cruzamento de animais aparentados gera fatalmente a consanguinidade, aspecto que poderia afetar em pouco prazo a habilidade materna e a fertilidade das vacas. O exemplo disso vem da raça Nelore, onde 80% do gado tem origem direta em Karvadi, um dos animais que entrou no Brasil junto com outros grandes 5 genearcas importados da Índia em 1962.

 

Em matéria da AG - Revista do criador (2009), o jornalista Adilson Rodrigues aborda que a questão já havia sido tratada com profusão em 2001, através de um estudo realizado por pesquisadores da Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP), coordenado por Raysildo Lobo. De 25 mil machos nascidos naquele ano, foram selecionados 1.164 touros de 106 fazendas que apresentaram DEPs positivas no Programa de Melhoramento Genético da Raça Nelore (PMGRN). Constatou-se que, 95% dos touros candidatos à reprodução programada que aconteceria dois anos depois, apresentaram parentesco com o touro Ludy de Garça, o qual ainda participou na composição de DNA com mais de 14% dos genes.

 

Nessa mesma revista, o ex-presidente da ABCZ - Orestes Prata Tibery Júnior comenta sobre a necessidade de refrescamento de sangue, bem como o resultado esperado na importação realizada naquele momento.

 

Toda vez que cruzamos linhagens diferentes há heterose, o conhecido "choque de sangue ". Quando se começa a acasalar animais com parentesco até ocorrem melhoras, mas os defeitos se multiplicam com mais facilidade. Vale lembrar que a endogamia promove uma perda de produtividade e fertilidade de 1% a cada dez anos em uma raça. O material que está vindo é o que existe de melhor na Índia e vai agregar novo sangue, além de melhorar caracterização racial, fertilidade e, especialmente, rusticidade e habilidade materna dos produtos brasileiros.

 

(TIBERY, Orestes Prata. Entrevista a AG - Revista do Criador, 2009).


Fonte de leite e trabalho, na Índia o zebu assume relações de proximidade com as pessoas. Adorado, os indianos dedicam rituais de devoção ao animal. Foto: Ângelo Tibery. Índia, 2006.

A busca por "sangue novo" na criação de zebu fez com que Abelardo Lupion liquidasse seus melhores animais para iniciar uma seleção nova de gado fechado indiano POI - Puro de Origem Indiana. Na ocasião, Alberlardo Lupion que também era deputado Federal, foi presidente da Comissão Parlamentar Brasil-Índia. Esteve na Índia por 5 vezes participando das negociações para a abertura de mercado e a procura do ongole (o nelore indiano).

 

Lupion relata que comprar animais no país foi um imenso desafio, os touros e as vacas eram encontrados apenas em aldeias. A venda desses animais era realizada quando houvesse a aceitação dos anciões e dos habitantes dos vilarejos. Comenta que houve caso, que precisou de três anos tão-somente para conseguir comprar alguns touros.

 

Havia procissão para se despedir dos animais, que chegavam pintados por todo o corpo com temas religiosos. Os indianos também não costumam negociar com estrangeiros. O nativo Pradip Singhi Bhadursing Raoul tornou-se uma peça fundamental na empreitada para localizar o Ongole. Sua família, da região de Bhavnagar, o cria há séculos e intermediou as negociações para os brasileiros. "É praticamente impossível andar pela Índia sem a ajuda de alguém que conheça muito bem o local ", destaca o deputado. Diferente do Brasil, Ongole existe só no estado de Andrha Pradesh, ao sul da Índia, de onde vieram as importações de 1962. Os benefícios podem até acontecer no F1, mas somente a partir da 3ª geração os resultados realmente irão aparecer. A seleção do POI que será feita vai priorizar avaliação genética, com animais abaixo dos nossos padrões sendo descartados.

 

(LUPION, Aberlardo. Entrevista a AG - Revista do Criador, 2009).


Os animais são pintados e adornados em cerimônia de celebração a sua importância para povo indiano. Fonte: Ângelo Tibery, 2006. Índia.

Dentre os criadores e especialistas brasileiros que percorreram a Índia durante meses à procura de animais para seleção, histórias como a de Geraldo Melo Filho e Ângelo Tibery, filho de Orestes Prata Tibery Filho são peculiares. Criador há 28 anos, Geraldo Melo Filho esteve na Índia para selecionar os animais para coleta de seu material genético em 2003, 2004, 2006 que seriam destinados ao País.

 

Em entrevista à Revista ABCZ, Geraldo Melo narra:

 

A pureza do deserto é fenomenal. Os mestiços não conseguiriam sobreviver às temperaturas tão altas e à escassez de comida do deserto. O guzerá, por ter rusticidade, vive bem nessa região. O gado come o que acha, como, por exemplo, palhada de alguma lavoura já colhida e, mesmo assim, dá boa quantidade de leite para consumo das famílias. A pureza dos lotes no deserto é fenomenal.

 

(MELO FILHO, Geraldo. Entrevista a Revista ABCZ, 2008)

 

Nessas expedições percorreu milhares de quilômetros do território indiano em busca de rebanhos puros da região nativa do guzerá, o estado de Guzarate. Em torno da principal cidade do estado, Ahmedabad, o criador narra que os animais comumente são mestiços. Justifica que um dos motivos para tal realidade, é o fato que o governo incentiva há vários anos o cruzamento de raças taurinas com zebuínas a fim de garantir mais leite para população. Situação que tem gerado inversamente, a problemática da redução de rebanho zebuíno puro no entorno da cidade. Como a Índia é marcada por contrastes, quando Geraldo Melo Filho rumou para o interior, deparou com outro panorama, pois em meio ao deserto se encontraria lotes de animais da raça guzerá puríssimos.

 

Autor: Thiago Riccioppo - Historiador, Mestre em História pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU; Gerente Executivo do Museu do Zebu/ABCZ e colaborador do CRPBZ.

 

Assista a seguir à entrevista, dividida em duas partes, concedida pelo então vice-presidente à ABCZ:


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